Onda de manifestações desta quinta-feira deve se alastrar pelo interior do país

No Estado, além de Porto Alegre, há atos marcados para cidades como Rio Grande, Santana do Livramento, Santa Maria e Pelotas.

A inédita onda de insatisfação que ganhou as ruas nas últimas semanas, reunindo multidões nas principais capitais brasileiras, deve se espraiar nesta quinta-feira, atingindo novamente o interior do país.

Há previsão de manifestações em mais de uma centena de cidades, em todas as regiões. No Rio Grande do Sul, atos públicos estão marcados em pelo menos 15 municípios.

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A mobilização acontece três dias após o protesto de segunda-feira, quando multidões marcharam por 11 capitais, incluindo São Paulo, Rio, Brasília e Porto Alegre. Sem líderes reconhecidos, os protestos são convocados por diferentes grupos, movimentos e indivíduos via internet, especialmente por intermédio do Facebook.

Às 21h de quarta-feira, uma das várias páginas chamavam para o protesto previsto para Porto Alegre. Houve confirmações também para os atos no interior gaúcho. As cidades com manifestações programadas para hoje são: São Leopoldo, Pelotas, Passo Fundo, Alegrete, Rio Grande, Sapiranga, Santana do Livramento, Sapucaia do Sul, Lajeado, Santa Rosa, Bagé, Santa Maria, Ijuí, Soledade e Tenente Portela.

"Pegaram o gosto de ir para a rua"

Os protestos começaram como um movimento pela redução das tarifas de ônibus, mas foram ganhando corpo com o passar do tempo. A questão do transporte público tornou-se apenas uma entre muitas causas abraçadas pelos ativistas.

— Aconteceram muitas coisas nesses dias, o movimento ganhou dimensão nacional e ultrapassou a pauta inicial. As pessoas pegaram gosto de ir para a rua e querem uma reforma política séria, querem ter participação efetiva — analisa Ernani Rossetto Juriatti, 28 anos, da direção do Diretório Central de Estudantes da PUCRS.

A estudante de cursinho pré-vestibular Marina Tabanisk, 18 anos, que participará nesta quinta-feira de seu terceiro protesto em Porto Alegre, é uma das que estarão na rua por motivos que vão além da tarifa do ônibus:

— O que me move mais é a corrupção, o dinheiro público que vai para a Copa e não para saúde e educação.

Marina programou com um grupo de amigas encontrar-se no centro da Capital para a manifestação, mas teme que a violência registrada na noite de segunda-feira possa desanimar parte dos manifestantes e fazê-los ficar em casa.

— Como houve muita confusão, o pessoal pode ter se assustado. Os pais podem não querer que participem. Quase todo mundo é contra a violência, quer fazer uma manifestação pacífica e vai xingar quem vandaliza — afirma ela.

Clima de repúdio a atos de violência

As depredações e confrontos com a Brigada Militar ocorridos na última mobilização estiveram entre os temas mais discutidos ao longo da semana nas redes sociais. A estudante de Relações Internacionais Manuela Burtet, 20 anos, conta que há um clima de repúdio à violência e ao vandalismo — ela fez questão de firmar uma espécie de abaixo-assinado virtual contra os que semeiam o terror pelas cidades. Na segunda-feira, Manuela estava na Avenida João Pessoa no momento em que um ônibus foi depredado. Era seu primeiro protesto.

— Foram apenas 15 pessoas que queimaram o ônibus. Essa gente tem de pagar por isso. Até a Avenida Ipiranga, o protesto foi superbem, pacífico. Mas então esse grupo teve atitudes que prejudicaram a manifestação. A galera vaiou esse pessoal. Eles são loucos. Não nos representam. As pessoas queriam continuar se manifestando na rua e tiveram de ir embora por medo desse pessoal. Agora há a preocupação de mostrar que a grande maioria é totalmente contra a depredação. O nosso objetivo é um protesto pacífico do início ao fim — diz Manuela.

Brigada orientou policiais a dialogar

Luhcas Alves, 27 anos, integra dois coletivos que têm ajudado a chamar a população para a rua se manifestar. Segundo Luhcas, o fato de o movimento não ter uma liderança institucionalizada dificulta o controle sobre atos de alguns grupos. Ele critica o fato de integrantes da maioria pacífica também terem sofrido com a ação da Brigada Militar.

— Existem muitos focos. Algumas pessoas se exaltam. Mas a gente precisa olhar para o lado positivo. As pessoas estão saindo de suas casas para dizer que querem mudança.

Preocupada em que não ocorram excessos, a BM orientou seus policiais a dialogar com os manifestantes. A ideia é que os PMs acompanhem a manifestação desde o início, sentem lado a lado com ativistas e conversem. Foram confeccionados panfletos que serão distribuídos pelos policiais. Neles, a Brigada diz que manifestações fazem parte da democracia e que os policiais estão ali para assegurar a segurança dos manifestantes — e também para evitar ações de vandalismo. Na terça-feira, o governador Tarso Genro disse que possíveis alvos de depredação serão protegidos:

— A Brigada vai proteger, sem discriminação, sempre que houver ameaça. Vai proteger o Correio do Povo, a Zero Hora, a sede do PSOL, do PMDB ou de qualquer partido que venha a ser ameaçado.

ZERO HORA