O mal está entre nós

 

Aline Mendes Favarim

Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (agosto/2011); Mestre em Ciências Criminais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (março/2015).

Aline Mendes FavarimO que seria do ser humano se não fossem as perguntas? Somos movidos por questionamentos, os quais são o motor das descobertas e, consequentemente, da evolução da sociedade. A curiosidade humana nos levou a descobrir que a Terra é redonda, que podemos pisar na lua, assim como tantos outros achados que contribuíram para que chegássemos ao patamar em que nos encontramos atualmente.

Nessa linha, o interesse que a mente humana desperta origina uma série de perguntas, cujas respostas são de grande valia a diversas áreas do conhecimento, especialmente à Medicina e à Psicologia. No entanto, mais que apenas saber como funciona o cérebro do ser humano, nossa curiosidade é realmente atraída pela mente das pessoas (em tese) diferentes de nós, ou seja, aquelas que se comportam de uma forma como nunca nos comportaríamos. Sim, esse “nós” é um conceito delicado. Como saber quem somos “nós”? Obviamente, cada pessoa se inclui neste grupo ao fazer tal julgamento, afastando-se daquilo que considera inadequado, diferente - e por que não dizer, daquilo que não compreende.

Mesmo se distanciando, a curiosidade pelo diferente faz com que o ser humano busque, de todas as formas, explicações para o que não entende. Neste ponto, uma das questões mais intrigantes diz respeito ao mal. O “mal” que é antônimo do “bem”, aquele cuja existência é questionada porque, no fundo, todos reconhecemos que possuímos um pouco dele, e isso assusta.

Conhecemos o mal ainda na infância, da forma mais lúdica possível: os contos de fadas. Histórias nas quais uma menina sofre das mais variadas maneiras, devido às maldades de uma madrasta, uma bruxa ou um vilão por ela rejeitado. Os desenhos animados, de igual forma, nos mostram que existem os bons e os maus, inclusive dentro da mesma família. Na década de 90, o filme “O Rei Leão” cumpriu tal papel com maestria, culminando na cena que fez pais e filhos chorarem: a morte de Mufasa, provocada por seu próprio irmão, Scar.

Desde a infância, somos ensinados por nossa família, pelos desenhos animados, pelas histórias infantis e pela escola a sermos pessoas “de bem”, a nos comportarmos da melhor forma possível, mas também aprendemos que existem pessoas más, que possuem pensamentos reprováveis e praticam atos condenáveis, sendo elas o modelo que não devemos seguir, e mais, do qual precisamos nos afastar. Quando crianças, definir o bem e o mal parece ser mais fácil. Sabemos exatamente do que devemos manter distância, quais são os exemplos a não serem seguidos, e repetimos esse comportamento no decorrer da vida.

Contudo, à medida que crescemos e amadurecemos, percebemos que aquelas referências negativas da infância não estão tão distantes da nossa realidade quanto gostaríamos. Ao notarmos que nem todas as nossas atitudes ao longo da vida são características daquela pessoa boa que aprendemos a ser, descobrimos que, na verdade, ninguém é bom ou mau por completo. É inerente ao ser humano realizar julgamentos e ter opinião formada sobre tudo, de maneira que sentir-se superior e ditar regras para os outros é uma tarefa rotineira e fácil, até que façamos o exercício mais difícil, isto é, nos colocarmos no lugar do outro. A partir desse momento nos é possível reconhecer que, estando em igual situação, provavelmente teríamos a mesma atitude.

E aqui voltamos aos contos de fadas: por exemplo, a madrasta da Branca de Neve, antes considerada uma pessoa extremamente má, não pode ser vista apenas como uma mulher narcisista que tem inveja da beleza da enteada? Ninguém gosta de admitir que já sentiu inveja ao menos uma vez durante a vida, ou que, por um momento, desejou que tudo desse errado para aquele desafeto. Porém, acontece. É característico do ser humano possuir sentimentos contraditórios (amor, ódio, admiração, inveja) dependendo da situação em que se encontra.

É justamente devido à linha tênue existente entre os comportamentos naturais do ser humano e o mal que este último nos fascina tanto. A realidade é que cada um de nós deseja acreditar que é bom e que determinadas pessoas representam o mal. Por essa razão, quando nos deparamos com um crime bárbaro, a primeira reação é questionar o porquê de tamanha crueldade. Assim, instantaneamente, o foco é colocado no agressor. “Psicopata” é a denominação preferida para a pessoa que não sente remorso mesmo após cometer as piores atrocidades. Mal sabem as pessoas “de bem” que o psicopata não é um ser de outro planeta, e que suas atitudes nem sempre fogem da nossa realidade. Porém, é melhor que ele continue longe, nas páginas policiais, assim como é melhor acreditar que a madrasta da Branca de Neve é somente uma vilã de contos de fadas, e Scar, um personagem de desenho animado.

Fonte: http://www.parlatoriojuridico.com.br/?pagina=alinefavarin